Introdução do artigo
Este artigo aborda o conceito de Jesus Cristo como Juiz e Rei dos reis na teologia cristã, por meio de uma leitura teológica aprofundada do Evangelho de João. O juízo é aqui associado à luz, a iluminação espiritual à salvação, e a verdade divina à revelação do ser humano diante de si mesmo. No cristianismo, o juízo não é apenas um ato jurídico de condenação, mas um acontecimento existencial que revela a atitude do ser humano diante da luz divina quando ela lhe é manifestada.
Introdução teológica
O Evangelho proclama que Jesus Cristo não é apenas o Salvador que veio para servir e salvar a humanidade, mas também o Rei Juiz. Pois o rei — segundo a teologia bíblica — possui exclusivamente o direito de governar e julgar. O juízo não é um ato de crueldade, mas uma expressão da soberania, do Reino e do direito divino de ordenar a criação segundo a vontade de Elohim.
No Evangelho de João, a cura do homem cego de nascença não é apresentada apenas como um milagre físico, mas como uma profunda revelação teológica. Quando o Senhor Jesus se revela a esse homem, declara:
“Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.” (João 9:39)
Essa declaração não contradiz a mensagem da salvação, mas a completa. Cristo não veio apenas para servir e salvar, mas também para manifestar o Reino; e o Reino, por sua própria natureza, implica juízo, pois um rei não reina sem julgar, e não julga senão segundo a verdade.
Primeiro: A autoridade de Cristo como Rei e Juiz
A autoridade de Cristo no juízo procede de sua identidade como Rei dos reis e Senhor dos senhores. O rei, no conceito bíblico, não é escolhido apenas para servir, mas para governar, estabelecer a justiça, revelar a verdade e separar a luz das trevas.
Por isso, a cura do cego de nascença não é simplesmente um ato de misericórdia, mas uma proclamação soberana do domínio de Cristo sobre a criação, sobre o ser humano e sobre a própria visão espiritual.
Segundo: O juízo como revelação, não apenas como condenação
O juízo anunciado por Cristo neste texto não é meramente jurídico, mas revelador: revela quem está na luz e quem está nas trevas; quem realmente vê e quem apenas pensa que vê.
O homem fisicamente cego era também espiritualmente cego, mas ao encontrar-se com Cristo passou a ver tanto com os olhos do corpo quanto com os olhos do espírito. Já os fariseus, orgulhosos de seu conhecimento da Lei e de sua suposta iluminação espiritual, revelaram-se profundamente cegos: viram o milagre, mas não reconheceram o autor do milagre.
Terceiro: O paradoxo teológico do juízo divino
Aqui se manifesta um profundo paradoxo teológico: Aquele que nunca havia visto foi considerado digno de ver tudo. Aqueles que julgavam ver tudo foram atingidos pela cegueira.
O juízo divino não se baseia na posse do conhecimento religioso, mas na abertura do coração à verdade. Não se constrói sobre a pretensão de ver, mas sobre o reconhecimento da necessidade da luz. Assim, Cristo se revela como Juiz não por severidade, mas porque é a Verdade encarnada que revela todas as coisas como realmente são.
1. Inversão dos critérios: do “nada” à “plenitude”
Na lógica divina, a necessidade é o único requisito para receber. O cego curado (João 9) não possuía nada: nem visão física, nem posição religiosa.
Profundidade teológica
Quando Cristo determinou que ele “visse tudo”, não se tratava apenas de visão sensorial, mas de iluminação espiritual. Quem reconhece a própria cegueira abre espaço para que a graça divina atue.
O mesmo aconteceu com os discípulos no caminho de Emaús: apesar de caminharem longamente com Ele e conversarem, nada compreenderam até que suas mentes foram abertas e reconheceram a Palavra.
O juízo tornou-se aqui um dom de graça transformado em visão teológica. O cego passou a ver aquilo que os fariseus não conseguiram ver: viu Deus feito carne.
2. A armadilha da autossuficiência
Aqueles que afirmavam ver (os fariseus e os mestres da Lei) caíram no pecado da autossuficiência intelectual e espiritual.
Profundidade teológica
A pretensão de ver é o ápice da cegueira espiritual, pois fecha a porta à luz exterior. Eles se enclausuraram em sua “própria luz” — tradições e interpretações — e essa luz se transformou em trevas.
O juízo aqui não é tanto uma punição, mas uma consequência inevitável: quem fecha voluntariamente os olhos diante do sol perde, pouco a pouco, a capacidade de ver.
3. O critério do juízo: abertura do coração, não posse do conhecimento
Aqui passamos da teologia dos textos à teologia do ser. A Lei pode conceder conhecimento intelectual sobre Deus, mas não concede vida. Paradoxalmente, aqueles que guardavam a Lei a utilizaram como um véu que os impediu de ver o Doador da Lei.
Abertura do coração
É um estado de humildade ontológica, no qual o ser humano reconhece que sua luz não provém de si mesmo, mas da Palavra (Logos).
4. Cristo, o “Juiz”, como espelho da verdade
Surge então a pergunta: por que Cristo é chamado de Juiz se Ele mesmo diz: “Não vim para julgar o mundo”?
Profundidade teológica
Cristo é o juízo em sua essência. Sua própria presença é o veredicto. Como uma vela acesa em um quarto escuro: ela não pune a escuridão, mas revela a sujeira escondida nela.
Ele é a Verdade encarnada que coloca cada ser humano diante de sua realidade nua. O juízo cristão consiste em escolher permanecer nas trevas para evitar o confronto com a luz que desmascara as falsas pretensões.
5. Reconhecer a necessidade da luz como ato salvífico
O paradoxo teológico se completa aqui: reconhecer a própria cegueira é o início da visão.
Na teologia ascética, afirma-se: “Ver os próprios pecados é maior do que ver anjos”.
Quando o cego reconheceu sua incapacidade, tornou-se apto a receber a Luz do mundo. Aqueles que se julgavam falsamente “videntes” perderam a capacidade de arrependimento, pois se consideravam completos.
O juízo divino é um processo de discernimento existencial: Cristo é o ímã que atrai os corações abertos (mesmo que estejam cegos) e repele os corações orgulhosos (mesmo que sejam instruídos).
O juízo à luz da luz e das trevas
Jesus diz:
“Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” (João 8:12)
Assim, o juízo torna-se uma postura existencial diante da luz.
“E este é o juízo: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz.” (João 3:19)
O juízo não acontece porque a luz está ausente, mas porque ela está presente e é rejeitada.
Conclusão
Toda a glória seja dada unicamente a Jesus Cristo,
Rei dos reis e Senhor dos senhores,
o mesmo ontem, hoje e para sempre.
